IPv6 no provedor: por onde começar a migração
A pergunta não é mais "se", é "quando". O IPv4 acabou: o esgotamento global se consolidou há anos e o LACNIC já só distribui blocos pequenos vindos de pools de recuperação. No Brasil, manter o crescimento da base de assinantes em IPv4 puro significa empilhar CGNAT, comprar blocos no mercado secundário a preço de dólar e conviver com chamados que nem o próprio suporte consegue diagnosticar. IPv6 não é projeto de inovação: é redução de custo operacional e de dívida técnica. O problema é que a maioria dos provedores trava antes de começar, por falta de plano de endereçamento e por receio de mexer no core. Este artigo é o roteiro mínimo para sair do papel sem quebrar a rede.
Primeiro entenda: dual-stack, não substituição
Migrar para IPv6 não significa desligar IPv4. O modelo correto, e o único viável hoje, é dual-stack: cada elemento de rede e cada assinante recebem endereços IPv4 e IPv6 simultaneamente. O cliente resolve via DNS e o Happy Eyeballs (RFC 8305) no dispositivo escolhe automaticamente o caminho mais rápido — na prática, prefere IPv6 quando disponível. Você ganha alívio imediato no CGNAT (boa parte do tráfego — Google, Netflix, Cloudflare, Meta — já fala IPv6 nativo e some das tabelas de tradução) sem cortar nada de quem ainda depende de IPv4.
Esqueça NAT64/DNS64 e IPv6-only como ponto de partida. São destinos maduros, não a primeira etapa. Comece dual-stack; depois de a rede estar estável e instrumentada, avalie reduzir a dependência de IPv4.
Pegue o bloco certo no registro.br
Se você já tem ASN no registro.br, a alocação de IPv6 é direta e barata em relação ao IPv4. O bloco típico para um provedor é um /32 — e isso é muito mais espaço do que a intuição de quem vem do IPv4 sugere. Não economize prefixo: IPv6 foi desenhado para você ser generoso.
A regra de ouro do plano de endereçamento:
- /64 é a menor sub-rede possível. Nunca use prefixo mais longo que /64 em segmento de assinante — o SLAAC simplesmente para de funcionar. Não existe "/120 para economizar".
- Delegue /56 por assinante residencial (256 redes /64 para o cliente). Use /48 para clientes corporativos. Delegar só um /64 ao CPE é um erro clássico: impede o cliente de ter VLANs e segmentos internos e força você a renumerar depois.
- Reserve hierarquicamente por POP/região. Quebre o /32 em blocos por agregação (por exemplo, um /36 por POP, /40 por OLT), deixando espaço contíguo para crescer. Endereçamento plano vira pesadelo de sumarização no BGP.
- Separe loopbacks, links ponto a ponto e pools de delegação em ranges distintos e documentados.
Esse desenho precisa existir antes de configurar o primeiro roteador. Plano de endereçamento improvisado é a dívida que mais dói depois.
A ordem de implantação que não quebra nada
Migre de fora para dentro, do controlado para o massivo:
- Core e borda (BGP). Suba IPv6 nos uplinks e peerings. Anuncie seu /32 aos trânsitos e, principalmente, no IX.br — o PIX da sua região provavelmente já tem volume relevante de tráfego IPv6 que você está empurrando para o trânsito pago à toa. Configure o ROA de RPKI para o prefixo IPv6 também, não só para o IPv4.
- Roteamento interno. OSPFv3 ou IS-IS para IPv6, ou dual-stack no IGP que você já roda.
- DNS. Publique registros AAAA dos seus serviços e garanta que o resolver recursivo do provedor responde por IPv6. Sem AAAA, o assinante nunca usa o caminho v6 mesmo com tudo pronto.
- Agregação e OLTs. Habilite IPv6 no caminho até a borda de acesso.
- BNG e assinante por último. No BNG (MikroTik, Cisco ASR, Huawei, Juniper), configure DHCPv6-PD para entregar o prefixo delegado ao CPE via PPPoE/IPoE. Faça rollout gradual: uma OLT, um bairro, um lote de clientes — valide e depois escale.
O erro mais comum aqui é tentar ligar tudo de uma vez. O acesso é onde o CPE do cliente é a variável caótica: firmware antigo que não pede prefixo, roteador de varejo que ignora RA. Lote pequeno primeiro.
Os erros que travam a adoção
- Filtrar ICMPv6 como se fosse o ICMP do IPv4. Em IPv6, o ICMPv6 é estrutural: Neighbor Discovery, RA e PMTUD dependem dele. Bloqueá-lo de forma ampla quebra a conectividade de maneira intermitente e difícil de diagnosticar. Filtre por tipo, não por atacado.
- Esquecer o MTU e o Path MTU Discovery. O IPv6 não fragmenta em trânsito. Se o PMTUD estiver quebrado (por ICMPv6 filtrado), o cliente vê site que carrega pela metade e travamentos de HTTPS.
- Tratar firewall e segurança como detalhe. Em dual-stack você dobra a superfície: cada regra de IPv4 precisa de equivalente em IPv6. Política só em v4 deixa o assinante exposto pelo v6.
- Não ter inventário do que já foi migrado. Sem saber qual OLT, qual BNG e qual range já estão em produção, o rollout vira adivinhação e o suporte não consegue diagnosticar o cliente.
- Não testar de verdade. Valide com ferramentas externas (test-ipv6 e similares), confira a delegação chegando ao CPE e o tráfego saindo pelo IX.
Documentação não é opcional
IPv6 multiplica a quantidade de informação que sua operação precisa rastrear: o plano hierárquico do /32, qual /56 foi delegado a qual cliente, quais POPs e BNGs já estão em dual-stack, o estado do ROA. Manter isso em planilha solta é a receita para o projeto azedar. É exatamente o tipo de problema de IPAM e DCIM que o NetPulse — nossa plataforma de NOC multi-tenant — foi feito para resolver: inventário de rede, gestão de endereçamento, monitoramento SNMP dos elementos migrados e documentação viva, em um lugar só. Quando o plano de endereçamento mora junto do monitoramento, o rollout deixa de ser fé e vira processo.
Por onde começar, na prática
Tenha o ASN e o /32 no registro.br, desenhe o plano de endereçamento hierárquico no papel, ative IPv6 na borda e no IX.br, ajuste o DNS e só então avance para o acesso em lotes pequenos com DHCPv6-PD. Dual-stack do começo ao fim, ICMPv6 respeitado, firewall espelhado e tudo documentado.
A CloudFace trabalha com isso no dia a dia: consultoria de roteamento e BGP, operação de NOC 24/7 e o NetPulse para inventário, IPAM e monitoramento da migração. Se o seu IPv6 está parado por falta de plano — ou já começou e travou no acesso —, fale com a gente no WhatsApp para um diagnóstico inicial gratuito da sua rede. Sem compromisso, direto ao ponto.